quarta-feira, 8 de junho de 2011


Roteiro Semi-estruturado 
PESQUISA QUALITATIVA - 
INDIVIDUAL EM PROFUNDIDADE E GRUPO FOCAL

  1. Contextualização (pesquisa de dados secundários)
1.1  Localização geográfica: utilizar mapas, referindo módulo assistencial, micro e macrorregião, distância em relação à capital
1.2  Aspectos demográficos e socioeconômicos: caracterização regional e municipal
1.3  Perfil epidemiológico, confrontando-se com as prioridades de morbimortalidade nacional e estadual
1.4  Histórico da Estratégia Saúde da Família e do Programa Farmácia de Minas no Município
1.5  Observação qualitativa: a visão do pesquisador sublinhando aspectos, destacando questões. Sempre que preciso, usar citações textuais por meio das gravações
  1. A Unidade de Saúde: Equipe, Usuários e Rede
2.1  Impressões iniciais do pesquisador: como foi recebido, o acesso às equipes e aos demais atores da saúde coletiva no momento da pesquisa
2.2  Descrição geral do ambiente: instalações físicas, organização, atitudes em relação aos usuários e destes com o espaço da unidade de saúde e seus profissionais
2.3  Descrição da composição da equipe profissional
2.4   O farmacêutico do Programa Farmácia de Minas cumpre carga horária integral: sim ou não?
2.5  Os médicos cumprem carga horária integral: sim ou não?
2.6  Há algum médico que cumpre menos de quatro horas diárias? Sim ou não? Quantos?
2.7  Os dentistas cumprem carga horária integral: sim ou não?
2.8  Os enfermeiros cumprem carga horária integral: sim ou não?
2.9    Existem Projetos Terapêuticos coerentes com o Perfil Epidemiológico e Demográfico? (Por exemplo, para faixas etárias específicas, endemias regionais ou prioridades de morbimortalidade)
2.10                        Como caracteriza-se a atenção à saúde da mulher e da criança?
2.11                        Identifica-se “escuta qualificada”, “acolhimento” ou estratégias de humanização em curso efetivo?
2.12                        Há trabalho coletivo (Grupos Operativos), por exemplo, para hipertensos e diabéticos?
2.13                        Atua-se com foco na promoção da saúde? Descrever como elas são realizadas: identifica-se intersetorialidade, estímulo à participação comunitária e à autonomia dos atores sociais (empowerment)?
2.14                        A partir do relato das entrevistas individuais e do grupo focal, o que se conclui sobre o processo de referência/contra-referência praticado pela unidade/equipe de saúde em relação à rede regionalizada
2.15                        Observações: a visão do pesquisador sublinhando aspectos, destacando alguma questão. Sempre que preciso, usar citações textuais por meio das gravações. Utilizar fotos que ilustrem a Unidade de Saúde
  1. Entrevista Individual: Farmacêutico
3.1  Como se pode caracterizar a relação do farmacêutico com a equipe: há diálogo freqüente, reuniões, intercâmbio de informações? Utilizam-se os protocolos terapêuticos nacionais e estaduais nessa interação? De que forma, com que freqüência?
3.2  Os prescritores atuam a partir das relações de medicamentos? Prescrevem genéricos e similares, há insistência em relação às marcas de referência? Essa prática envolve prescritores de outros níveis (secundário e terciário) da rede regionalizada?
3.3  Quais as principais questões/queixas referidas? Quais os atores/práticas envolvem? Descrever o desenvolvimento de casos concretos
3.4  Houve acesso a prescrições? Elas atendem às normas legais em vigor: legibilidade, dados do paciente (utilizar referência secundária da legislação). Apontar questões concretas, ilustrando-as.
3.5  Identificou-se, nesta ou noutras entrevistas ou no grupo focal, práticas como receitas previamente preenchidas, repetição automática da prescrição por períodos muito longos e sem novas consultas/exames? Quem preenche as receitas que são assinadas?
3.6  Como o entrevistado percebe os hábitos de informação dos prescritores, quais as sugestões para melhorar o nível de conhecimento
3.7  Qual a percepção do entrevistado sobre o Prescritores de Qualidade e os meios que pretende utilizar: atuação em campo dos consultores terapêuticos e portal colaborativo?
3.8  Observações: a visão do pesquisador sublinhando aspectos, destacando alguma questão. Sempre que preciso, usar citações textuais por meio das gravações.
  1. Entrevista Individual: Médico(s)
4.1  Foi verificado, durante a entrevista, que o entrevistado possui e utiliza os protocolos terapêuticos oficiais? Quais? Se não, citar quais utiliza. Ao ser apresentado ao protocolo oficial, relatar reações significativas
4.2  Relata que tipo de acesso/hábito de informação sobre medicamentos. A afirmação foi confirmada? Por exemplo: se afirma ir a congressos, realmente, comprova participação nos últimos 12 meses?
4.3  Relata que espécie de dúvidas/questões sobre prescrição de medicamentos? (Citar casos concretos, complementando-os com dados técnicos. Lembre-se de que estaremos gerando demandas para os consultores técnicos elaborarem material de suporte aos prescritores)
4.4  Recorre a quais fontes e meios para dirimir essas dúvidas? Qual foi o último caso relatado, que tipo de resposta recebeu? Poderiam ser mais completas?   
4.5  Qual a sua percepção sobre o acesso às fontes e a qualidade das informações sobre prescrição de medicamentos:
- universidade
- indústria farmacêutica
- mídia
-artigos científicos
-publicações técnicas ou científicas
-outras
 Sente-se seguro e atualizado em relação ao tema prescrição de medicamentos?
4.6  Relata sugestão ou cobrança por parte do usuário para prescrever determinado tipo de medicamento (marca, referência ou genérico) ou exame?
4.7  Consegue distinguir qual a fonte de onde se origina essa demanda, informação ou recomendação: “vizinhoterapia”, mídia (especificar se TV, rádio, internet, jornal ou revista), farmácia ou drogaria, outros profissionais de saúde, públicos ou privados?
4.8  Relata interferência de ordem política ou hierárquica na prescrição. Que tipo de situação nessa linha relata? De qual fonte ela parte? Essa intervenção “dialoga” com a postura do usuário na clínica? Em algum momento, foi relatado mudança de conduta terapêutica e/ou medicamentosa por conta dessas interferências? 
4.9  Quais as sugestões para melhorar o nível de conhecimento em relação ao assunto. Quais os componentes do seu estilo de vida (atitudes, interesses e valores) que podem contribuir para atrair o seu interesse em torno do assunto?
4.10                     Qual a sua percepção sobre o Prescritores de Qualidade e os meios que pretende utilizar: atuação em campo dos consultores terapêuticos e portal colaborativo?
4.11                     Observações: a visão do pesquisador sublinhando aspectos, destacando alguma questão mais marcante, mesmo que não tenha diretamente haver com o roteiro ou mesmo um detalhe que lhe chamou a atenção e seja representativo/simbólico.
4.12                     Sempre que preciso, deve-se usar citações textuais por meio das gravações, recomendando-se que não sejam longas. As aspas devem ser utilizadas para “marcar” um termo mais forte, denso, que transmita uma carga de informação ou de opinião do entrevistado
  1. Entrevista Individual: dentista(s)
5.1  Foi verificado, durante a entrevista, que ele possui e utiliza os protocolos terapêuticos oficiais? Quais? Se não, citar quais utiliza.
5.2  Relata que tipo de acesso/hábito de informação sobre medicamentos. A afirmação foi confirmada? Por exemplo: se afirma ir a congressos, realmente, comprova participação nos últimos 12 meses?
5.3  Relata que espécie de dúvidas/questões relata sobre prescrição de medicamentos? Citar casos concretos, complementando-os com dados técnicos. Lembrem-se que estaremos gerando demandas para os consultores técnicos elaborarem material de suporte aos prescritores
5.4  Recorre a quais fontes e meios para dirimir essas dúvidas? Qual foi o último caso relatado, que tipo de resposta recebeu? Poderiam ser mais completas?   
5.5  Qual a sua percepção sobre o acesso as fontes e a qualidade das informações sobre prescrição de medicamentos:
- universidade
- indústria farmacêutica
- mídia
-artigos científicos
-publicações técnicas ou científicas
-outras
 Sente-se seguro e atualizado em relação ao tema prescrição de medicamentos?
5.6  Relata sugestão ou cobrança por parte do usuário para prescrever determinado tipo de medicamento (marca, referência ou genérico) ou exame?
5.7  Consegue distinguir qual a fonte de onde se origina essa demanda, informação ou recomendação: “vizinhoterapia”, mídia (especificar se TV, rádio, internet, jornal ou revista), farmácia ou drogaria, outros profissionais de saúde, públicos ou privados?
5.8  Relata interferência de ordem política ou hierárquica na prescrição. Que tipo de situação nessa linha relata? De qual fonte ela parte? Essa intervenção “dialoga” com a postura do usuário na clínica? Em algum momento, foi relatado mudança de conduta terapêutica e/ou medicamentosa por conta dessas interferências? 
5.9  Quais as sugestões para melhorar o nível de conhecimento em relação ao assunto. Quais os componentes do seu estilo de vida (atitudes, interesses e valores) que podem contribuir para atrair o seu interesse em torno do assunto?
5.10                     Qual a sua percepção sobre o Prescritores de Qualidade e os meios que pretende utilizar: atuação em campo dos consultores terapêuticos e portal colaborativo?
5.11                     Observações: a visão do pesquisador sublinhando aspectos, destacando alguma questão mais marcante, mesmo que não tenha diretamente haver com o roteiro ou mesmo um detalhe que lhe chamou a atenção e seja representativo/simbólico.
5.12                     Sempre que preciso, deve-se usar citações textuais por meio das gravações, recomendando-se que não sejam longas. As aspas devem ser utilizadas para “marcar” um termo mais forte, denso, que transmita uma carga de informação ou de opinião do entrevistado
  1. Entrevista Individual: Enfermeiro(s)
6.1  Foi verificado, durante a entrevista, que ele possui e utiliza os protocolos terapêuticos oficiais? Quais? Se não, citar quais utiliza.
6.2  Relata que tipo de acesso/hábito de informação sobre medicamentos. A afirmação foi confirmada? Por exemplo: se afirma ir a congressos, realmente, comprova participação nos últimos 12 meses?
6.3  Relata que espécie de dúvidas/questões relata sobre prescrição de medicamentos? Citar casos concretos, complementando-os com dados técnicos. Lembrem-se que estaremos gerando demandas para os consultores técnicos elaborarem material de suporte aos prescritores
6.4  Recorre a quais fontes e meios para dirimir essas dúvidas? Qual foi o último caso relatado, que tipo de resposta recebeu? Poderiam ser mais completas?   
6.5  Qual a sua percepção sobre o acesso as fontes e a qualidade das informações sobre prescrição de medicamentos:
- universidade
- indústria farmacêutica
- mídia
-artigos científicos
-publicações técnicas ou científicas
-outras
 Sente-se seguro e atualizado em relação ao tema prescrição de medicamentos?
6.6  Relata sugestão ou cobrança por parte do usuário para prescrever determinado tipo de medicamento (marca, referência ou genérico) ou exame?
6.7  Consegue distinguir qual a fonte de onde se origina essa demanda, informação ou recomendação: “vizinhoterapia”, mídia (especificar se TV, rádio, internet, jornal ou revista), farmácia ou drogaria, outros profissionais de saúde, públicos ou privados?
6.8  Relata interferência de ordem política ou hierárquica na prescrição. Que tipo de situação nessa linha relata? De qual fonte ela parte? Essa intervenção “dialoga” com a postura do usuário na clínica? Em algum momento, foi relatado mudança de conduta terapêutica e/ou medicamentosa por conta dessas interferências? 
6.9  Quais as sugestões para melhorar o nível de conhecimento em relação ao assunto. Quais os componentes do seu estilo de vida (atitudes, interesses e valores) que podem contribuir para atrair o seu interesse em torno do assunto?
6.10                     Qual a sua percepção sobre o Prescritores de Qualidade e os meios que pretende utilizar: atuação em campo dos consultores terapêuticos e portal colaborativo?
6.11                     Observações: a visão do pesquisador sublinhando aspectos, destacando alguma questão mais marcante, mesmo que não tenha diretamente haver com o roteiro ou mesmo um detalhe que lhe chamou a atenção e seja representativo/simbólico.
6.12                     Sempre que preciso, deve-se usar citações textuais por meio das gravações, recomendando-se que não sejam longas. As aspas devem ser utilizadas para “marcar” um termo mais forte, denso, que transmita uma carga de informação ou de opinião do entrevistado








  1. Grupo Focal de Discussão
7.1  Há coerência manifesta entre o “discurso de equipe” e as práticas de decisão e execução? Como as contradições manifestam-se?
7.2  Quais os “papéis” os diversos atores desempenham no grupo? Por exemplo:  “o autoritário” (‘minha equipe’), “o franciscano”, “o político conciliador”, “técnico-não me comprometa” etc. Descreva-os, bem como as posições que eles sustentam.
7.3  Como o grupo resolve a convivência, a interação entre esses atores? Há participação de todos? Verifica-se intimidação, latente ou manifesta, de qualquer espécie?
7.4  Relate como as contradições do discurso de cada um dos atores e dos papéis que eles desempenham manifestam-se no grupo de discussão. Percebem-se conflitos latentes ou revelados?
7.5  O grupo assume interferências políticas na clínica e nos projetos terapêuticos? Como eles lidam com essas questões? O grupo assume-se como um ator político que deve atuar frente a elas?
7.6  Quando identificam uma conduta terapêutica e/ou medicamentosa não condizente com os padrões éticos técnicos e legais, o grupo toma iniciativa concreta diante do caso? Como?
7.7  Como as questões relativas à prescrição aparecem? Eles discutem as relações de poder, de informação e comunicação que estão aí inseridas?
7.8  Há um incômodo “da equipe” em relação a privilégios envolvendo questões corporativas, por exemplo, em torno dos médicos (carga horária, salários)? Como relatam experiências nesse sentido?
7.9  Como as questões relativas ao uso abusivo de medicamentos aparecem? O uso excessivo de psicotrópicos, especialmente os benzodiazepínicos, como são abordados? Há uma postura “de equipe” em relação a isso? 
7.10                     Ao tocar nesses temas, percebe-se uma a postura “de equipe”? As falas são dissonantes? Elas mudam, acomodam-se? O grupo caminha para o conflito ou para uma coesão em torno dessa questão?
7.11                     Como receberam o Prescritores de Qualidade, seus meios de abordagem, suas propostas? Há falas significativas além dos tradicionais: “vai ser muito bom, estamos mesmo precisando disso?”
7.12                     Há uma disposição real de mudança ou identificam-se falas do tipo: “o projeto de vocês é muito bom, mas não vai mudar nada”?

AVALIAÇÕES E RECOMENDAÇÕES
Repassamos às consultoras terapêuticas e o consultor a seguinte avaliação e recomendações para a continuidade do trabalho de campo - Projeto Prescritores de Qualidade, a partir de reunião realizada nesta quinta-feira, dia 07 de abril de 2011, entre o coordenador, Luiz Marinho,  e o gerente de comunicação, César Luz.

1 – Todos os indicadores nos levam a certificar a metodologia qualitativa como adequada aos objetivos propostos, tendo em vista já os primeiros resultados alcançados, que revelam informações e dados  extremamente valiosos; a equipe está no caminho certo, diante do qual muito terá a aprimorar para vencer os desafios em realizar um projeto que inaugura métodos de abordagem extremamente pioneiros;
2 -  Pedimos que leiam e releiam as instruções anteriormente repassadas nos roteiros enviados, acrescentando-se outras observações, que sempre serão feitas à medida da necessidade;
3 – Entrevistas individuais em Profundidade– Necessário que o conhecimento adquirido no curso sobre Farmacologia Clínica seja aplicado, utilizando-se o método de Pesquisa Qualitativa citado. Ou seja: nas entrevistas, cabe às consultoras provocar o interlocutor a partir dos protocolos terapêuticos consolidados, a fim de perceber até que ponto as suas condutas estão sendo pautas com base nos estudos baseados em evidência científica, como as Linhas-Guia da SES-MG, Relações de Medicamentos e Protocolos do Ministério da Saúde.
Vamos imaginar uma conversa com uma dentista:
(Consultora):
“Sabemos que os analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios são alguns dos fármacos utilizados por você. Gostaria de saber como prescreve, por exemplo, os anti-inflamatórios, têm algum tipo de dúvida, utiliza que tipo de protocolo etc e, assim, sucessivamente, para as outras classes de medicamentos.”
Importante notar que, a partir das respostas, o papel da PESQUISADORA é precisamente este: PESQUISAR, APROFUNDAR, DETALHAR, FECHAR O CICLO DE INFORMAÇÕES BÁSICAS.
Ser educado e cortês sempre, mas somente contentar-se quando as informações necessárias forem fornecidas.
Lembrem-se de que, quando não fecharem isso na conversa, necessariamente, terão que fazer novos contatos por telefone e e-mail, o que significa retrabalho e o risco de comprometimento dos nossos exíguos prazos.
Vale a reguinha: “QUEM FEZ O QUÊ, QUANDO, ONDE, COMO POR QUE E PARA QUÊ”.  Use-a para fechar o ciclo de informações em torno de um determinado assunto.
Nas individuais, importante pedir para o prescritor lhe mostrar o que usa como fonte de consulta: “Cadê o seu protocolo, tem aí as Linhas-Guia etc?”


4 – Grupos Focais – A riqueza aqui é descortinar as relações que estão por detrás das condutas individuais e coletivas. Fazer o grupo debater, olhar-se de forma diferente daquela que o dia-a-dia o condicionou a ver (normalmente, de forma estreita e míope).
Encontrar as suas contradições, cotejar posicionamentos: “Fulano o que você pensa disso que Beltrano falou”.
Dar voz a todos: “Vamos ouvir com atenção o que o nosso colega Cicrano tem a dizer.”
Evitar perguntas vazias, genéricas, decoradas. O ROTEIRO NÃO É PARA SER DECORADO, É APENAS UM SUPORTE PARA O PERCURSO AUTÔNOMO DOS PESQUISADORES.
Num dos grupos, uma profissional dentista disse que, “às vezes, conversa com o médico ou com o farmacêutico sobre dúvidas em relação a medicamentos”. Ao ouvir isso, nenhuma das Pesquisadoras questionou. O certo é:
“Por favor, me dê exemplos, fale-me de que tipo de dúvidas.”
E ao médico ou ao farmacêutico:
“E você, para responder às dúvidas, referencia-se a que tipo de fonte. Onde vai pesquisar quando não sabe responder?”
É assim, com perguntas concretas, que teremos respostas diretas, reais e não aquelas unicamente CONVENIENTES.
5 – Entrevista com o farmacêutico – Ele mostra-nos ser o profissional mais qualificado a indicar quais tipo de questões devemos centrar atenção naquele grupo, PELO MENOS, EM TORNO DA QUESTÃO DIRETA DOS MEDICAMENTOS. Isso, claro, quanto o farmacêutico mostra-se interessado, pois temos visto que alguns não apresentam o menor compromisso...
Peça para lhe mostrar e copiar receitas, estudos, textos que tenha produzido.
Com esses elementos, ele irá nos “pautar” para as outras abordagens. Mas, cuidado, não estamos fazendo uma fiscalização, importante que tudo seja feito com naturalidade, sem cobranças, num clima sempre de colaboração.
6 – Uso do gravador, Coleta de Materiais e Relatório de Pesquisa
“Quem tem um não tem nenhum.”
É sábio o dito popular, que nos avisa: leve dois gravadores, dois jogos de pilhas etc. Por conta de algum dispositivo simples e barato, podemos ficar na mão e em situação embaraçosa.
Lembramos que serão exigidos como produtos da pesquisa:
- o  texto
- a gravação
- se possível, fotos e materiais como Xerox de receitas e textos disponibilizados pela  equipe (lembre-se de pedir,perguntar por isso).
Vamos montar, independente do portal (isso já é decisão tomada) um blog ao estilo “diário de viagens” em que vamos publicar esses materiais.
O relatório deverá ser enviado ao Gestor de Comunicação e ao Coordenador para avaliação crítica. Quando for o caso, será solicitado documentar afirmações, complementar informações e detalhar algum ponto obscuro.
Assim, quanto mais “redondinho” estiver o seu relato, melhor, menos retrabalho.
METODOLOGIA:  estamos com um tipo de tipo pesquisa chamada Straight Description ou Descrição Direta, que irá nos permitir, aplicadas a realidades diversas, construir o que chamamos de Categoriais Analíticas, ou seja, um padrão de parâmetros para mensuração do estado de evolução de uma determinada realidade.
Assim, precisamos estar atentos às variáveis que se repetem, ao que é recorrente ao nosso olhar. Anotar e comparar essas realidades por meio dessas variáveis.
>>> Por fim, sabemos que essa é uma experiência nova para a maioria de vocês. Estamos aprendendo, não precisamos querer acertar tudo de uma só vez. Mas é fundamental concentração no que estão fazendo, sendo de investigação, checar e rechecar o material que irão nos enviar, sempre recheando-o de citações literais para que tenha a maior solidez possível.







Prezada Equipe de Pesquisa
A cada visita realizada, a cada reunião da equipe, esse roteiro incorpora novas questões. Certamente, se o escrevêssemos daqui a algumas semanas, ele não seria o mesmo.
Essa constatação demonstra, em primeiro lugar, o dinamismo da nossa metodologia, a riqueza do material com o qual estamos laborando.
Em seguida, que precisaremos saber lidar com uma busca constante em torno do aprimoramento. Uma postura inquieta, de insatisfação, dialética, dialógica.
Que conversem entre vocês, que debatam, “troquem figurinhas”, será sempre muito rico esse aprendizado.
E que a abordagem individual e ao grupo de discussão sirva como um argumento para abrirem uma frente de relacionamento com esses profissionais.
Alguma questão que é solicitada para o relatório não foi coletada exatamente daquela forma? Que ótimo, um bom argumento para restabelecer contato com a equipe da unidade de saúde!
É assim, fazendo-se presentes, que estaremos mostrando-lhes que o Prescritores de Qualidade realmente é um proposta de rede colaborativa, interativa, inovadora.
Mas, ao mesmo tempo, teremos que saber lidar com a sensação de incompletude, de busca que nunca se satisfaz por completo. Natural nesse processo, portanto, que surjam novas perguntas, para as quais, inicialmente, não teremos respostas prontas.
Mas é precisamente aí que provaremos o viés de pesquisa do nosso projeto. Não ter medo de perguntar, de assumir a dúvida.
Da mesma forma, buscar respostas, seja onde for.
Pesquisadora, desbravadora, eis a sua lida: tatear, tentar construir novos saberes, fazer perguntas desconcertantes a você e aos outros...
*Decidimos repetir os roteiros para médicos, dentistas e enfermeiros, apesar de ser o mesmo, por ser uma forma de fixação do conteúdo.
**Inserimos perguntas sobre a fonte/origem das demandas que os usuários trazem aos consultórios, uma vez que foi apontada como uma constante em todas as equipes.
***Estamos, como sempre, abertos para as críticas, sugestões e dúvidas
25 DE ABRIL DE 2011
CÉSAR AUGUSTO LUZ
GESTOR DE COMUNICAÇÃO

O mundo tem remédio?
Tem sim, senhor
E galinha toma Rivotril?
Antibiótico para vaca?
Vim buscar um iodo para evitar câncer, que nem que lá no Japão.
Vencemos, tudo ao mesmo tempo, agora. Fechamos o primeiro ciclo da Pesquisa Qualitativa em 33 municípios de Minas Gerais. Grotões. Sertões mesmo (veja a lista completa no blog do projeto). Êta que Minas são muitas mesmo!
Em uns lugares, para chegar, só de balsa. Outros, de tão longe, melhor ir de avião para Brasília e, de lá, pegar um ônibus velho; mais adiante, esperar 4 horas, no trevo, para acabar a viagem. Mas não abrimos mão de um único município que foi sorteado: é o tal do aleatório estratificado por regiões. Persistência metodológica é isso!
Minas Gerais, um mar de município, cercado de montanha por todos os lados. Diz um amigo meu que mineiro gosta de duas coisas: “pão de queijo e de município”.
Uma média de quatro entrevistas individuais em profundidade em cada uma das unidades de saúde visitadas. Todas integrantes do Programa Farmácia de Minas e com, pelo menos, uma equipe de Saúde da Família. Todos até dez mil habitantes.
Em tantos quantos foi possível, realizamos Grupo Focal com os integrantes das Equipes de Saúde. Cerca de 10.
Um material muito rico, cheio de contradições. Um mosaico. Uma amostra, uma colherada na sopa do que é hoje o SUS pelo País afora.
Foi um trabalho em equipe: quatro pesquisadoras de campo, que chamamos consultoras terapêuticas. Um consultor científico. Um coordenador. Todos farmacêuticos. E um gerente de comunicação, este que vos fala.  
Foram meses de preparação. Leituras. Oficinas. Palestras. Debates, quebra-pau mesmo. Foi bom demais: firmou nossa têmpera.
Bom, agora, vamos aos resultados.
O que escrevi no início deste texto não é inventado, está tudo comigo, nos relatórios das pesquisas. Nesse momento, estou trabalhando na sistematização deles. Cabe-me fazer uma costura de todo material, juntar, articular, apontar o específico. Um trabalho braçal, 33 textos ao todo que precisam virar unzinho apenas.   
Tem gente dando Rivrotril para a galinha porque a bichinha está “muito agitada”. O outro foi ao centro de saúde buscar antibiótico para a sua vaca, “está com problema, doutor”.
Na segunda-feira seguinte ao “Fantástico”, depois que a Globo sugeriu que a prevenção para o câncer estava no iodo que os japoneses tomam por conta da radiação de Fukushima, teve fila em unidade de saúde. “Vim buscar o meu.” E quem não quer, um iodozinho de nada, findo o câncer!
E outros achados. É médico que vai a unidade de saúde duas vezes por semana, trabalha de 7h às 8h e ganha dez paus. Isto mesmo: 8h de trabalho por mês!
Vimos receitas azuis serem preenchidas, à farta, pelos Agentes Comunitários de Saúde.  “Isso é em todo lugar.”O médico só assina. Tá que nem político: nem sabia o que assinei. “Zaz, já assinei. Vou nessa, porque tenho mais dez paus para faturar noutro lugarejo.“
E aí vem o escândalo do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde). O governo está recadastrando todo mundo por conta desses fraudadores. Porque vimos médicos que vão para o interior é para comprar fazenda e engordar gado no pasto. Para o gado deles não deve faltar antibiótico!
Tem mais, tem muito mais. Em várias unidades, os profissionais declaravam-se felizes, porque era a primeira vez que se reuniam, provocados pela nossa iniciativa. “Uai, mas vocês não falam de boca cheia da ‘equipe de saúde’”. Que nada!
No meio dessa mixórdia, benzodiazepínido voando para todo lado. Um caboclo toma ao todo 18 medicamentos diferentes! Usuário que tem a sua receita de anti-depressivo repetida por 14 anos.
Claro que tem gente comprometida. Claro que há equipes que, aos poucos, conseguem avançar. Muita luta. Dedicação. Vão viver lá naqueles grotões. Gente que estudou, num lugar que não tem nada para se fazer. A não ser falar da vida alheia.
Lembrei-me de outro caso: o exame de Aids é entregue pela mulher do paciente, aos prantos, para o médico. “Doutor, nem eu abri o exame, e a cidade inteira já sabe que o meu marido está com Aids.”
Coisas que nos mostram como funciona a vida nesses pequenos microcosmos sociais e políticos. Uma terra em que o vereador, o prefeito, o Zé e o Mané, estão à toa, ali, esperando uma encrenca, fazer uma fofoca, prontos para criar um boato.
E aí o usuário entra na unidade de saúde, ameaçando, “se não me derem o remédio, trago o vereador”.  E trazem mesmo, os desocupados arrumam um escarcéu. Daí que a equipe vive sob essa pressão constante. A política no interior, nesses grotões, funciona assim mesmo: “Zé é de cá, Mané de lá”. Acabou conversa.
De todo o sacolejo, o que fica para o meu projeto é algo que estou assimilando e vem mudar a minha proposta inicial.  
Antes de trombar com esse mundão, pensava de forma mais fria, racionalista: vou estudar os fluxos de comunicação que atuam, influenciando, construindo, a cultura da prescrição de medicamentos. Ou seja, o foco no prescritor (médico, dentista, enfermeiro).
Bacana. Temos um rico material a esse respeito. Já conseguimos compor perfis. Confirmamos mais do que tivemos surpresas. Os médicos novos são “internófilos”. Os mais antigos, “Défilos”, de DEF (Dicionário de Especialidades Farmacêuticas). A grande, a imensa maioria, não utiliza os protocolos terapêuticos oficiais. Como técnica perceptiva, decidimos mostrá-los, ao vivo e a cores, para ver a reação, desmascarar os que mentem.
Legal, mas uma coisa muito mais rica se descortinou. Algo está fervendo por debaixo dessa enxurrada química que nos assola. Encontramos como um dos padrões mais recorrentes a indicação de que o usuário entra na consultório dizendo o que quer, exame, remédio, tudinho. E ai do médico se não der. “Chamo o vereador.”
Mexidas simbólicas, nas relações de poder. Na apropriação e utilização da informação que pulula, aos borbotões, da net, da mídia, da “vizinhoterapia”. E o interior, prova a nossa pesquisa, não está fora, muito antes pelo contrário, afundado até o pescoço nessa maré globalizante da tecnologia.
Daí que, conversando outro dia com a Ju e o Igor, vem a idéia de escolher uma ou duas cidades e retornar, agora para pesquisar apenas o usuário. Abrir a pesquisa para a cultura, para o mundo da vida, para esse pulsar.
Paro por aqui. É muito o que pensar. Já iniciei as conversas com o Professor Valdir e ele vê que essa linha do usuário, citando o “mercado simbólico” e a Professora Inesita, são muito profícuos. Mas e aí? Conseguirei incorporar as duas linhas de pesquisa no meu trabalho?  Espero ter essas respostas em breve.